Todo mundo pode fazer o que quiser com o próprio dinheiro. Eu ou você não precisamos dar satisfações a ninguém, desde que empreguemos nossos caraminguás em coisas lícitas.

Mas isso não me impede de ter opiniões. E por isso acho que um dos moradores do condomínio onde moro é um idiota. Na verdade, acho que vários deles são energúmenos, mas isso não vem ao caso agora.

Tem uma família que comprou dois Volkswagen CrossFox. Para mim, este carrinho é a maior prova de estupidez que alguém pode dar. Basta comprar um para passar o recado. Ser dono de dois extrapola os limites da imbecilidade. E isso me chamou a atenção ao vizinho.

O CrossFox é resultado de uma moda que o marketing automotivo apelidou de “off-road light”. A imprensa “especializada” resolveu adotar o termo e elevou o modismo à uma categoria de modelos. E assim nasceram os “aventureiros urbanos”. São carros que não tem nenhuma capacidade fora-de-estrada, mas vêm com acessórios e design que supostamente dão a sensação de trejeitos aventureiros.

Divulgação/VW

Foto: Divulgação/VW

Para os marqueteiros das montadoras, quem compra esses carros tem o “espírito aventureiro” ou querem “exteriorizar seu estilo”. Alegam que os enfeites dão status e “agregam outros valores”. Enfim, um calhamaço de clichês que esse povo adora.
E isso nos leva de volta ao meu vizinho idiota e sua esposa.

O VW CrossFox custa R$ 41.100, enquanto o Fox Plus 1.6, que usa o mesmo motor do “aventureiro”, parte de R$ 37.525. Tratam-se do mesmo carro. Colocando nos dois ar-condicionado, rodas de liga leve, travas e vidros elétricos, seus preços pulam para R$ 47.815 e R$ 42.860, nesta ordem.

A diferença de R$ 4.955 é o gasto com suspensão elevada, os adesivos da raposinha, aerofólio, parachoque com faróis de longo alcance e aquele péssimo suporte de estepe que deixa o pneu pendurado do lado de fora.

Meu vizinho e sua mulher gastaram quase R$ 10.000 para ter dois carrinhos equipados com essas porcarias. Outro registro: o custo da Volks não ultrapassa R$ 500 para enfiar isso tudo na garagem* alheia.

Toda vez que eles chegam com compras, dá mais trabalho acessar o portamalas.
Primeiro eles destravam o suporte do estepe. Depois empurram a pesada armação de ferro para o lado e então levantam a tampa traseira.

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A suspensão mais alta do CrossFox prejudica a estabilidade do carro, principalmente em curvas. A distância de frenagem também é pior, assim como a aceleração. O peso extra da tralha estética faz aumentar o consumo de combustível.  Para dificultar o roubo do estepe à mostra, ele providenciou correntes com cadeado para envolver a roda.
Além disso, os badulaques tornam mais caros os custos de reparo. Em caso de acidente, custa mais pagar pelas peças exclusivas do “aventureiro”.

Pode até não ser problema meu, mas estupidez demais irrita muito.

*achei que o termo “garagem” seria mais apropriado que o outro iniciado pela letra cê.

Meu café da manhã incluido na diária de um hotel de baixo custo nos Eua

Meu café da manhã incluído na diária de um hotel de baixo custo nos Eua

Um dos maus hábitos dos americanos é o consumo indiscriminado de tudo o que puderem. Mas mesmo nos Estados Unidos já começa a pulular indícios de consciência ambiental.

Os meios de comunicação e a indústria estão gradualmente adotando o conceito de preservação da natureza e estimulando a moderação no consumo de recursos finitos.

Na vida cotidiana, as famigeradas sacolinhas de plástico estão vindo com sugestões de reciclagem e reuso. Mas amestrar a população americana vai ser difícil, muito mais do que em outros países.

No Brasil falta estrutura, consciência social, informação e estímulo. Lá, o problema está no hábito do uso de produtos descartáveis. E é por isso que a preocupação com o ambiente é incipiente e incompleta naquele país. Por enquanto, se resume ao aproveitamento das sacolinhas de plástico.

É até engraçado comprar comida envolvida por embalagens de isopor, embrulho e prato de papel, com talheres, copos e garrafas de plástico. Tudo enviado para o mesmo depositório de inservíveis, sem dores na consciência. A sacolinha, vilã, frequentemente é a única que vem estampada com mensagens de reaproveitamento.
Em uma semana nos Eua, comi apenas uma vez usando talheres de metal. E mesmo assim, prato e copo eram de plástico. Restaurantes que oferecem boa comida e serviço de metal são bem caros.

No Brasil precisamos ter locais para coleta de material reciclável e esclarecer a população. Mais do que mudar hábitos, temos que adotar práticas. Nos Estados Unidos, o governo vai ter que ensinar a população a lavar louça e a usar copos de vidro. Os restaurantes vão ter que contratar imigrantes ilegais para lavar pratos e recolher a mesa dos clientes (hoje os próprios consumidores levam sua bandeja ao lixo).

Provavelmente as facas e garfos vão continuar sendo feitos de plástico por questões de segurança nacional. Os dois instrumentos são armas perigosas e podem ser usadas por terroristas disfarçados de velhinhas em cadeiras de rodas.

Acabei de voltar dos Estados Unidos. Toda vez que volto daquele país fico com boas e más impressões na cabeça. Gosto de como eles lidam com o dinheiro nas pequenas transações comerciais do dia-a-dia.

Não interessa a bocada em que você se meter a comprar algum badulaque. Eles sempre vão te devolver o troco do US$ 0,99 que você pagou.

Passei no Starbucks e o atendente se desculpou por não ter US$ 0,01 para devolver. Como sua moeda mais baixa era de US$ 0,05, disse que eu poderia ficar com o troco a mais ou voltar mais tarde para pegar o que faltava.

Acabei dizendo que não importava. E que deixasse do jeito que estava.

No dia seguinte, já no Brasil, fui à farmácia e a conta fechou em R$ 29,98. Dei R$ 50 e, o que você acha? Claro que só me voltaram R$ 20.

O.K., o assunto não é novo, há comunidades no Orkut clamando “Quero meu 1 centavo”, “Eu peço 1 centavo de troco” ou equivalentes.

Mas é que isso realmente me irrita. Não a falta de troco. Mas o hábito de as pessoas não se preocuparem com isso. E nem com a atenção dos lojistas em perguntar se o cliente se importa em ficar sem R$ 0,02.

DE 1 EM 1 – Antes do Natal, lá na rua 25 de Março, passei em uma loja de brinquedos e a atendente fez vista grossa para R$ 0,05. Caso você não lembre, existe a moeda com esse valor.

Na fila, estava observando o movimento e reparei que a moça do caixa perguntou aos quatro clientes à minha frente: “Posso ficar devendo XX centavos?”

E quando chegou minha vez, claro, a mesma pergunta. Quando respondi um seco “não”, ela me olhou com espanto e ainda achou ruim.

- Eu não tenho troco no caixa.

- E eu só esses R$ 50. (a conta era de R$ 49,95)

- Bom, mas e agora?

- Você tem dez centavos no caixa?

- Tenho sim. Você tem R$ 0,95?

- Não, não tenho. Então me dê esses R$ 0,10 de troco.

- Ah, moço, mas não posso. É muita coisa e vai “desfalcar” meu caixa.

- Querida, você desfalcou o bolso dos quatro caras que estavam aqui antes de mim. Por que eu também preciso pagar a mais? A loja é que está me devendo e você deve ter algum crédito do troco que não deu.

- É que sai do meu bolso.

- Então reclama com seu patrão. Eu quero meu troco.

Resmungando, sem olhar para mim, deu os dez centavos e esqueceu o “Obrigado e volte sempre” do roteiro.

O hábito de não valorizar o dinheiro é dos consumidores, não dos lojistas. Ficamos acostumados à inflação e a não carregar moedas. Mas, pô, o real entrou em circulação em 1994. Faz 15 anos que convivemos com o dinheiro de metal. Será que ainda não deu para entender que mesmo os centavos valem uma boa grana?